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terça-feira, 4 de junho de 2013
sábado, 25 de maio de 2013
NOTAS CONSERVADORAS E LIBERAIS
Algumas notas conservadoras e liberais (já antigas e agora compiladas) sobre as motivações e as consequências do excesso de legislação que publiquei no Folia do Caos: A Questão do Legalismo.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
REVISING IDEALS
“The whole conception of man already endowed with a mind capable of conceiving civilization setting out to create it is fundamentally false. Man did not simply impose upon the world a pattern created by his mind. His mind is itself a system that constantly changes as a result of his endeavor to adapt himself to his surroundings. It would be an error to believe that, to achieve a higher civilization, we have merely to put into effect the ideas now guiding us. If we are to advance, we must leave room for a continuous revision of our present conceptions and ideals which will be necessitated by further experience. We are as little able to conceive what civilization will be, or can be, five hundred or even fifty years hence as our medieval forefathers or even our grandparents were able to foresee our manner of life today”.
F. A. Hayek, The Constitution of Liberty, 1960
quarta-feira, 1 de maio de 2013
WORK AND PLAY
"Tom said to himself that it was not such a hollow world after all. He had discovered a great law of human action, without knowing it, namely, that, in order to make a man or a boy covet a thing, it is only necessary to make the thing difficult to attain. If he had been a great and wise philosopher, like the writer of this book, he would now have comprehended that work consists of whatever a body is obliged to do, and that play consists of whatever a body is not obliged to do. And this would help him to understand why constructing artificial flowers, or performing on a tread-mill, is work whilst rolling nine-pins or climbing Mont Blanc is only amusement. There are wealthy gentlemen in England who drive four-horse passenger-coaches twenty or thirty miles on a daily line, in the summer, because the privilege costs them considerable money; but if they were offered wages for the service that would turn into work, then they would resign".
Mark Twain, The Adventures of Tom Sawyer (1876)
Mark Twain, The Adventures of Tom Sawyer (1876)
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
NOÇÕES PANTEÍSTAS (IX)
"One road there is, signposted in this wise:
Being was never born and never dies.
Four-square, unmoved, no end it will allow.
It never was, nor will be; all is now,
One and continuous. How could it be born
Or whence could it be grown? Unbeing? - No -
That mayn't be said or thought; we cannot go
So far ev'n to deny it is. What need,
Early or late, could Being from Unbeing seed?
Thus it must altogether be or not."
Parmenides, (~500 BC)
[in H. Diels and W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratier, 1951, translated and quoted by Anthony Kenny, A New History of Western Philosophy (2010)]
Being was never born and never dies.
Four-square, unmoved, no end it will allow.
It never was, nor will be; all is now,
One and continuous. How could it be born
Or whence could it be grown? Unbeing? - No -
That mayn't be said or thought; we cannot go
So far ev'n to deny it is. What need,
Early or late, could Being from Unbeing seed?
Thus it must altogether be or not."
Parmenides, (~500 BC)
[in H. Diels and W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratier, 1951, translated and quoted by Anthony Kenny, A New History of Western Philosophy (2010)]
NOÇÕES PANTEÍSTAS (VIII)
"Eternity, then, is the whole, simultaneous and perfect possession of boundless life, which becomes clearer by comparison with temporal things. For whatever lives in time proceeds in the present from the past into the future, and there is nothing established in time which can embrace the whole space of its life equally, but tomorrow surely it does not yet grasp, while yesterday it has already lost. And in this day to day life you live no more than in that moving and transitory movement. Therefore whatever endures the condition of time, although, as Aristotle thought concerning the world, it neither began ever to be nor ceases to be, and although its life is drawn out with the infinity of time, yet is not yet such that it may rightly be believed to be eternal. For it does not simultaneously comprehend and embrace the whole space of its life, though it be infinite, but it possesses no future yet, the past no longer. Whatever therefore comprehends and possesses at once the whole fulness of boundless life, and is such that neither is anything future lacking from it, not has anything past flowed away, that is rightly held to be eternal, and that must necessarily both always be present to itself, possessing itself in the present, and hold as present the infinity of moving time."
Boethius, The Consolation of Philosophy (524 AD)
Boethius, The Consolation of Philosophy (524 AD)
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
CHARLES TAYLOR
Quem tiver interesse em conhecer um pouco melhor o pensamento do filósofo comunitário, católico e contemporâneo, Charles Taylor, principalmente no que concerne às suas ideias sobre a relação entre o cristianismo e a "modernidade" pode ler este pequeno ensaio que publiquei no Folia do Caos. Apesar de eu tentar demonstrar uma certa contradição no seu pensamento e alguma fragilidade dos seus argumentos (num aspecto particular) é um bom ponto de entrada para um autor que vale muito a pena ler por ter uma crítica muito apurada no que concerne aos problemas actuais do Ocidente.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
NOÇÕES PANTEÍSTAS (VI)
Santo Agostinho defendia a ideia de que, de alguma forma, nós merecemos o 'mal'; Leibniz argumentava de que o 'mal metafísico' é uma mera consequência da nossa limitação. Ambos estão certos: se entendermos o todo como eterno, temos forçosamente que o conceber também como harmonioso: onde não há tempo, não há acção; onde não há divisões, não pode haver tensões. Ora, a limitação, já dizia Heraclito, exerce-se precisamente pela oposição: a tensão entre os opostos configura a separação entre o finito (em tensão) e o infinito (o absoluto harmónico). O 'mal' apenas pode surgir da tensão: no eterno e absoluto não pode existir nem 'bem' nem 'mal' pois tudo simplesmente é em absoluta harmonia. Assim sendo, o 'mal' será certamente consequência da limitação; mas porque é também a essa limitação que devemos a nossa possibilidade de existência então temos que aceitar que o 'mal' é o preço que pagamos pela vida. Nesse sentido, a existência do 'mal', tendo como alternativa a não-existência, será justamente merecida: não há almoços grátis.
NOÇÕES PANTEÍSTAS (V)
"I tried once to make Spinoza's system intelligible - to show that all things are mere accidents of a single substance. My friend interrupted me and said, 'but my God! Aren't you and I different men and do we not each possess an existence of our own?' 'Close the shutters!' I called to reply to his objection. This strange expression astonished him. He did not know what I meant. Finally, I explained myself. 'See', I said, 'the sun shines through the windows. The square window gives you a square reflection and the round window gives you a round reflection. Are they on that account different things and not one and the same sunshine?' "
Solomon Maimon, Lebengeschichte (1793)
Solomon Maimon, Lebengeschichte (1793)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O HOMEM, A VERDADE E A LIBERDADE: O Caso Português
Está bastante na moda falar-se sobre "falhas de comunicação", principalmente no que concerne à política governamental. A este propósito gostaria de deixar aqui uma pequena reflexão sobre as dificuldades que o acto de comunicar, na sua génese, configuram para os indivíduos e como compreender esse facto obriga a uma série de conclusões sobre a vida comunitária.
Imaginemos uma conversa entre dois amigos onde um deles, o Sr. Dr., profere uma frase; o seu interlocutor,o Sr. Eng.º, escuta-o. Essa frase é composta por palavras que, ao serem proferidas pelo Sr. Dr. são rapidamente entendidas como significando algo para o Sr. Eng.º. A razão pela qual significam alguma coisa é porque cada uma dessas palavras representa um conceito, ou seja, algo que representa um objecto que pode ser pensado apenas pelas suas características gerais. Isto significa que, através da palavra, o Sr. Dr. comunica - transporta - uma ideia que tem no seu próprio pensamento para o pensamento do Sr. Eng.º. O problema com os conceitos é que, precisamente por serem gerais e abstractos, significam coisas diferentes para cada um dos interlocutores numa conversa. A este propósito, Nietzsche, diz-nos que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária."(1) O que Nietzsche nos diz aqui é que cada conceito humano representa uma abstracção esvaziada de todas as características particulares que fazem cada aplicação prática desse conceito uma realidade; assim sendo, num conceito cabem muitas - todas, aliás - interpretações particulares possíveis sobre esse mesmo conceito: por "folha" podemos entender uma folha grande ou pequena, amarela ou verde, recordada ou redonda, etc., etc.
Voltando ao nosso exemplo, quando o Sr. Dr. diz a palavra "folha" está, por exemplo, a referir-se a uma folha em particular; já o Sr. Eng.º, quando ouve a palavra "folha" vai aplicar o conceito à sua interpretação própria do que é uma folha. Ou seja, apesar de ambos partirem do pressuposto de que se "entendem perfeitamente", um pode estar a referir-se a folhas verdes e pontiagudas enquanto que o outro imagina folhas quadradas e amarelas. Se no caso das folhas as consequências são despicientes na maioria dos casos, a trama complica-se quando começamos a falar de conceitos que são mais difíceis de transmitir: enquanto que uma folha pode desenhar-se num papel já, por exemplo, a ideia de "honestidade" é de explicação mais complexa. Como desenhá-la? Não podemos. Assim, quando o Sr. Dr. fala de alguém que é honesto, o Sr. Eng.º tem um conjunto enorme de premissas, mais ou menos coincidentes com as do Sr. Dr. para compreender ao que aquele se refere por "honestidade". Agora, imagine-se uma conversa onde estas discrepâncias vão aumentando, de forma imparável, a cada nova palavra - representando um diferente conceito - que se introduz na conversa. Invariavelmente, ao final de algum tempo, o Sr. Eng.º vira-se e exclama "espere aí que agora não compreendi", ao que o Sr. Dr. tem que afinar o discurso, apurar a conversa com conceito sobre conceito para, uma vez esclarecidas as dúvidas, o Sr. Eng.º o poder acompanhar. Agora, imaginemos, o Sr. Dr. começa a falar de conceitos ainda mais abstractos e que podem significar coisas completamente diferentes para o Sr. Eng.º: falar sobre o "bem", por exemplo; ou a "liberdade"; ou, quiçá, a "justiça". Cada um destes conceitos pode ter interpretações completamente diferentes: para o Sr. Dr. "justiça" pode significar "a cada um o que merece na sua particularidade", por exemplo, enquanto para o Sr. Eng.º, "justiça" pode significar "a mesma pena para todos". O que se tira daqui é que comunicar é uma arte verdadeiramente difícil: e quanto mais complexos os conceitos, mais difícil ela se torna.
Agora imaginemos que a conversa não é apenas entre o Sr. Dr. e o Sr. Eng.º mas é já um debate em que dezenas de pessoas estão envolvidas. Cada um com os seus conceitos. Pior: que é um debate público onde um país inteiro, cada um com a sua sentença e a sua interpretação, anda a tentar perceber o que fazer da sua vida. Imagine-se Portugal, onde uns adeptos da interpretação de "liberdade" e "justiça" como a igualização absoluta da propriedade por todos os cidadãos (como a esquerda radical) andam a "comunicar" com outros que entendem por "justiça" e "liberdade" que cada indivíduo deve ter a possibilidade de fazer o que bem entender da sua vida e dos seus bens. Aqui a comunicação é já uma guerra de surdos onde cada um ouve nas palavras dos outros o ataque às suas próprias convicções. Nesse debate, a interpretação do mundo que cada parte tem é tão diferente da outra que nem conseguem concordar sobre o que é o mundo; sobre o que é real. Sobra uma luta sobre o que cada parte entende que o mundo deve ser.
É forçoso que se compreenda que a nossa interpretação do mundo, do real, assenta, primeiro, sobre os conceitos que formamos por nós próprios através da interpretação particular que lhes atribuímos (decidimos o que significa uma folha ao olhar para elas) e, segundo, através dos outros conceitos mais abstractos cujo valor e significado nos é transmitido por quem nos educa (honestidade, liberdade, etc. são coisas que os valores transmitidos nos ensinam). A nossa interpretação do mundo é, portanto, uma amálgama altamente complexa - e única na sua particularidade - de abstracções humanas, bem como de valores particulares, acerca do é o mundo ou do que ele deveria ser. "Que é então a verdade?", questiona-se Nietzsche para logo responder que configura "um exército móvel de metáforas, de metomínias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal."(2) Que nos diz o Filósofo aqui? Que a nossa interpretação do mundo se baseia numa interpretação (a nossa) assente num conjunto imemorial de outras interpretações. A probabilidade de nos entendermos de facto é, portanto, muito reduzida.
É preciso ver que toda esta dificuldade nos diz alguma coisa. Diz-nos, por exemplo, que o desígnio da esquerda progressista que insiste num mundo harmónico onde cada indivíduo, através do Estado, encontra as suas necessidades plenamente satisfeitas, é uma impossibilidade. É uma impossibilidade porque os indivíduos nunca vão concordar sequer sobre o significa - ou mais correcto será dizer-se: deverá significar - "Estado", "indivíduo", "necessidades" ou "satisfeitas". É esta simples incompreensão da complexidade humana que a esquerda não consegue ultrapassar: para eles o Homem é plano, a Verdade é óbvia e todos podemos, de alguma forma, descobri-la. Quanto mais não seja à força: és livre de ser tão livre como eu entendo que "ser livre" significa.
O politicamente correcto é uma forma desta imposição: uma rejeição de outras formas de interpretar o mundo que não estão de acordo com a da maioria. Outra bem fácil de analisar, é a histeria que por aí vai a propósito da austeridade imposta pelo governo; por aí apelida-se o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças de "ladrões" que querem, de sua livre vontade, impor sevícias terríveis à população. Faz-me lembrar aqueles que acusavam os discos de heavy metal dos anos oitenta de terem mensagens escondidas de apelo ao suicídio. Perguntava-se, e bem, o Bill Hicks sobre qual seria a banda de rock que quereria ver os seus fãs (e a sua fonte de rendimento) mortos. O mesmo se poderia perguntar sobre qual o PM que quer perder as próximas eleições apenas por desejar roubar escandalosamente a sua população. Tudo isto apenas demonstra a incapacidade de comunicar entre diferentes visões da sociedade: quando não há capacidade de se encetar um debate racional recorre-se à violência da agressão verbal. E a seguir a esta vem normalmente a física.
Parece-me que é precisamente aqui que a visão conservadora-liberal tem algo para oferecer à sociedade: é preciso compreender que se queremos ter uma sociedade que seja bem sucedida, onde temos que centrar o debate será, em primeira instância, sobre o que vamos assumir como a nossa verdade; ou seja, quais são as nossas interpretações, enquanto país, dos conceitos básicos que presidem a uma comunidade política: o que entendemos por liberdade ? O que entendemos por justiça? Em suma: quais são as interpretações particulares sobre os valores fundamentais que queremos advogar. A isto se dá o nome de ideologia; aquela que os mais ignorantes afirmam ter morrido ou não haver espaço para ela.
O facto é que ter um debate público onde os marxistas-leninistas adversários da propriedade privada andam a discutir economia com os adeptos do mercado-livre e da liberdade individual não serve para nada a não ser para andar a lançar palavras vazias de sentido que configuram uma máscara sobre as ideologias que lhe estão subjacentes. É por isso que o debate ideológico é tão fundamental: apenas depois, entre aqueles que partilham um consenso sobre o que deve ser a sociedade, podemos discutir com profundidade as opções práticas sobre como obter melhor resultados com vista aos nossos objectivos particulares. Desmascarar a extrema-esquerda é pois fundamental: apenas quando, já nos idos de 1975, ela revelou a sua verdadeira face, os Portugueses compreenderam verdadeiramente o que estava em jogo e a rejeitaram. Ela está aí de volta agora mas, sabida e aprendida, esconde-se por detrás da máscara de um discurso não-ideológico populista. Acalentam a esperança de atingir o poder aproveitando-se do triunfo da ideia perigosíssima de que não há ideologias. O debate ideológico revela as intenções de cada grupo político; afirmar que não há ideologias (quando a própria interpretação do real é afectada pela ideologia) é apenas continuar a permitir que o debate político se trave numa arena escondida por detrás de uma opaca cortina de fumo.
O passo seguinte é o de definir o terreno de jogo político: e este é o dos factos. Se é certo que a verdade no seu sentido lato é imperscrutável, não deixa de ser igualmente certo que dois e dois são quatro e que, num sentido restrito, pela experiência e pela ciência, há certos factos que se podem aferir. Ora, como já vimos, cada conceito (logo também cada facto) pode ser interpretado de forma mais ou menos benevolente consoante a interpretação do mundo que lhe está subjacente tal como, não menos importante, o interesse que lhe assiste: cada político interpreta uma tabela de excel de forma diferente puxando a brasa à sua sardinha. É aqui que se exige que haja uma imparcialidade no debate: no oferecer-se ao público, incapaz de interpretar por si próprio os complicadíssimos conceitos que estão a ser debatidos, uma explicação clara sobre qual é a verdade particular que está ser discutida. É este o fundamental papel dos media: estipular as regras do jogo e aferir da plausibilidade de cada versão em debate.
Infelizmente, tudo isto tem falhado em Portugal de forma clamorosa: os media não apuram nada, limitam-se a papaguear slogans que lhe são oferecidos por agências de comunicação quando, pior, não representam as próprias vontades e interesses dos jornalistas ditos "de causas"; os políticos, porque mal preparados e sem uma visão consistente e profunda do mundo, são incapazes de ter uma proposta de futuro para a sociedade precisamente porque caem na falácia superficial de que as ideologias morreram; finalmente, o povo, verdadeiramente entalado entre políticos impreparados e um acesso limitadíssimo à boa informação (aquela que medeia e modera imparcialmente os diversos interesses em jogo expondo-os), vê-se sem capacidade de fielmente interpretar a realidade ao mesmo tempo que não percebe as verdadeiras diferenças entre as diferentes opções que lhe são propostas. No final, é o perfeito resultado de uma comunidade que, tendo rejeitado a última interpretação do mundo que lhe tinha sido imposta (o Deus, Pátria e Família de Salazar) ainda não conseguiu nos últimos quarenta anos preencher esse vácuo: que nem um barco à deriva, num mundo onde apenas os valores partilhados podem oferecer a segurança de uma âncora, está Portugal órfão de uma verdade.
(1) Friedrich Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral [1873], Relógio d'Água (2010), p. 220
(2) Ibidem, p. 221
Imaginemos uma conversa entre dois amigos onde um deles, o Sr. Dr., profere uma frase; o seu interlocutor,o Sr. Eng.º, escuta-o. Essa frase é composta por palavras que, ao serem proferidas pelo Sr. Dr. são rapidamente entendidas como significando algo para o Sr. Eng.º. A razão pela qual significam alguma coisa é porque cada uma dessas palavras representa um conceito, ou seja, algo que representa um objecto que pode ser pensado apenas pelas suas características gerais. Isto significa que, através da palavra, o Sr. Dr. comunica - transporta - uma ideia que tem no seu próprio pensamento para o pensamento do Sr. Eng.º. O problema com os conceitos é que, precisamente por serem gerais e abstractos, significam coisas diferentes para cada um dos interlocutores numa conversa. A este propósito, Nietzsche, diz-nos que "todo o conceito emerge da igualização do não igual. Tão certo como uma folha nunca [ser] completamente igual a uma outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono dessas diferenças individuais por um esquecimento do elemento diferenciador e suscita então a representação, como se existisse na natureza, fora das folhas, algo que fosse «a folha», algo como uma folha originária, segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas e pintadas mas por mão desajeitada, de tal maneira que nenhum exemplar tivesse sido executado de modo correcto e fiável como a cópia fiel da forma originária."(1) O que Nietzsche nos diz aqui é que cada conceito humano representa uma abstracção esvaziada de todas as características particulares que fazem cada aplicação prática desse conceito uma realidade; assim sendo, num conceito cabem muitas - todas, aliás - interpretações particulares possíveis sobre esse mesmo conceito: por "folha" podemos entender uma folha grande ou pequena, amarela ou verde, recordada ou redonda, etc., etc.
Voltando ao nosso exemplo, quando o Sr. Dr. diz a palavra "folha" está, por exemplo, a referir-se a uma folha em particular; já o Sr. Eng.º, quando ouve a palavra "folha" vai aplicar o conceito à sua interpretação própria do que é uma folha. Ou seja, apesar de ambos partirem do pressuposto de que se "entendem perfeitamente", um pode estar a referir-se a folhas verdes e pontiagudas enquanto que o outro imagina folhas quadradas e amarelas. Se no caso das folhas as consequências são despicientes na maioria dos casos, a trama complica-se quando começamos a falar de conceitos que são mais difíceis de transmitir: enquanto que uma folha pode desenhar-se num papel já, por exemplo, a ideia de "honestidade" é de explicação mais complexa. Como desenhá-la? Não podemos. Assim, quando o Sr. Dr. fala de alguém que é honesto, o Sr. Eng.º tem um conjunto enorme de premissas, mais ou menos coincidentes com as do Sr. Dr. para compreender ao que aquele se refere por "honestidade". Agora, imagine-se uma conversa onde estas discrepâncias vão aumentando, de forma imparável, a cada nova palavra - representando um diferente conceito - que se introduz na conversa. Invariavelmente, ao final de algum tempo, o Sr. Eng.º vira-se e exclama "espere aí que agora não compreendi", ao que o Sr. Dr. tem que afinar o discurso, apurar a conversa com conceito sobre conceito para, uma vez esclarecidas as dúvidas, o Sr. Eng.º o poder acompanhar. Agora, imaginemos, o Sr. Dr. começa a falar de conceitos ainda mais abstractos e que podem significar coisas completamente diferentes para o Sr. Eng.º: falar sobre o "bem", por exemplo; ou a "liberdade"; ou, quiçá, a "justiça". Cada um destes conceitos pode ter interpretações completamente diferentes: para o Sr. Dr. "justiça" pode significar "a cada um o que merece na sua particularidade", por exemplo, enquanto para o Sr. Eng.º, "justiça" pode significar "a mesma pena para todos". O que se tira daqui é que comunicar é uma arte verdadeiramente difícil: e quanto mais complexos os conceitos, mais difícil ela se torna.
Agora imaginemos que a conversa não é apenas entre o Sr. Dr. e o Sr. Eng.º mas é já um debate em que dezenas de pessoas estão envolvidas. Cada um com os seus conceitos. Pior: que é um debate público onde um país inteiro, cada um com a sua sentença e a sua interpretação, anda a tentar perceber o que fazer da sua vida. Imagine-se Portugal, onde uns adeptos da interpretação de "liberdade" e "justiça" como a igualização absoluta da propriedade por todos os cidadãos (como a esquerda radical) andam a "comunicar" com outros que entendem por "justiça" e "liberdade" que cada indivíduo deve ter a possibilidade de fazer o que bem entender da sua vida e dos seus bens. Aqui a comunicação é já uma guerra de surdos onde cada um ouve nas palavras dos outros o ataque às suas próprias convicções. Nesse debate, a interpretação do mundo que cada parte tem é tão diferente da outra que nem conseguem concordar sobre o que é o mundo; sobre o que é real. Sobra uma luta sobre o que cada parte entende que o mundo deve ser.
É forçoso que se compreenda que a nossa interpretação do mundo, do real, assenta, primeiro, sobre os conceitos que formamos por nós próprios através da interpretação particular que lhes atribuímos (decidimos o que significa uma folha ao olhar para elas) e, segundo, através dos outros conceitos mais abstractos cujo valor e significado nos é transmitido por quem nos educa (honestidade, liberdade, etc. são coisas que os valores transmitidos nos ensinam). A nossa interpretação do mundo é, portanto, uma amálgama altamente complexa - e única na sua particularidade - de abstracções humanas, bem como de valores particulares, acerca do é o mundo ou do que ele deveria ser. "Que é então a verdade?", questiona-se Nietzsche para logo responder que configura "um exército móvel de metáforas, de metomínias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal."(2) Que nos diz o Filósofo aqui? Que a nossa interpretação do mundo se baseia numa interpretação (a nossa) assente num conjunto imemorial de outras interpretações. A probabilidade de nos entendermos de facto é, portanto, muito reduzida.
É preciso ver que toda esta dificuldade nos diz alguma coisa. Diz-nos, por exemplo, que o desígnio da esquerda progressista que insiste num mundo harmónico onde cada indivíduo, através do Estado, encontra as suas necessidades plenamente satisfeitas, é uma impossibilidade. É uma impossibilidade porque os indivíduos nunca vão concordar sequer sobre o significa - ou mais correcto será dizer-se: deverá significar - "Estado", "indivíduo", "necessidades" ou "satisfeitas". É esta simples incompreensão da complexidade humana que a esquerda não consegue ultrapassar: para eles o Homem é plano, a Verdade é óbvia e todos podemos, de alguma forma, descobri-la. Quanto mais não seja à força: és livre de ser tão livre como eu entendo que "ser livre" significa.
O politicamente correcto é uma forma desta imposição: uma rejeição de outras formas de interpretar o mundo que não estão de acordo com a da maioria. Outra bem fácil de analisar, é a histeria que por aí vai a propósito da austeridade imposta pelo governo; por aí apelida-se o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças de "ladrões" que querem, de sua livre vontade, impor sevícias terríveis à população. Faz-me lembrar aqueles que acusavam os discos de heavy metal dos anos oitenta de terem mensagens escondidas de apelo ao suicídio. Perguntava-se, e bem, o Bill Hicks sobre qual seria a banda de rock que quereria ver os seus fãs (e a sua fonte de rendimento) mortos. O mesmo se poderia perguntar sobre qual o PM que quer perder as próximas eleições apenas por desejar roubar escandalosamente a sua população. Tudo isto apenas demonstra a incapacidade de comunicar entre diferentes visões da sociedade: quando não há capacidade de se encetar um debate racional recorre-se à violência da agressão verbal. E a seguir a esta vem normalmente a física.
Parece-me que é precisamente aqui que a visão conservadora-liberal tem algo para oferecer à sociedade: é preciso compreender que se queremos ter uma sociedade que seja bem sucedida, onde temos que centrar o debate será, em primeira instância, sobre o que vamos assumir como a nossa verdade; ou seja, quais são as nossas interpretações, enquanto país, dos conceitos básicos que presidem a uma comunidade política: o que entendemos por liberdade ? O que entendemos por justiça? Em suma: quais são as interpretações particulares sobre os valores fundamentais que queremos advogar. A isto se dá o nome de ideologia; aquela que os mais ignorantes afirmam ter morrido ou não haver espaço para ela.
O facto é que ter um debate público onde os marxistas-leninistas adversários da propriedade privada andam a discutir economia com os adeptos do mercado-livre e da liberdade individual não serve para nada a não ser para andar a lançar palavras vazias de sentido que configuram uma máscara sobre as ideologias que lhe estão subjacentes. É por isso que o debate ideológico é tão fundamental: apenas depois, entre aqueles que partilham um consenso sobre o que deve ser a sociedade, podemos discutir com profundidade as opções práticas sobre como obter melhor resultados com vista aos nossos objectivos particulares. Desmascarar a extrema-esquerda é pois fundamental: apenas quando, já nos idos de 1975, ela revelou a sua verdadeira face, os Portugueses compreenderam verdadeiramente o que estava em jogo e a rejeitaram. Ela está aí de volta agora mas, sabida e aprendida, esconde-se por detrás da máscara de um discurso não-ideológico populista. Acalentam a esperança de atingir o poder aproveitando-se do triunfo da ideia perigosíssima de que não há ideologias. O debate ideológico revela as intenções de cada grupo político; afirmar que não há ideologias (quando a própria interpretação do real é afectada pela ideologia) é apenas continuar a permitir que o debate político se trave numa arena escondida por detrás de uma opaca cortina de fumo.
O passo seguinte é o de definir o terreno de jogo político: e este é o dos factos. Se é certo que a verdade no seu sentido lato é imperscrutável, não deixa de ser igualmente certo que dois e dois são quatro e que, num sentido restrito, pela experiência e pela ciência, há certos factos que se podem aferir. Ora, como já vimos, cada conceito (logo também cada facto) pode ser interpretado de forma mais ou menos benevolente consoante a interpretação do mundo que lhe está subjacente tal como, não menos importante, o interesse que lhe assiste: cada político interpreta uma tabela de excel de forma diferente puxando a brasa à sua sardinha. É aqui que se exige que haja uma imparcialidade no debate: no oferecer-se ao público, incapaz de interpretar por si próprio os complicadíssimos conceitos que estão a ser debatidos, uma explicação clara sobre qual é a verdade particular que está ser discutida. É este o fundamental papel dos media: estipular as regras do jogo e aferir da plausibilidade de cada versão em debate.
Infelizmente, tudo isto tem falhado em Portugal de forma clamorosa: os media não apuram nada, limitam-se a papaguear slogans que lhe são oferecidos por agências de comunicação quando, pior, não representam as próprias vontades e interesses dos jornalistas ditos "de causas"; os políticos, porque mal preparados e sem uma visão consistente e profunda do mundo, são incapazes de ter uma proposta de futuro para a sociedade precisamente porque caem na falácia superficial de que as ideologias morreram; finalmente, o povo, verdadeiramente entalado entre políticos impreparados e um acesso limitadíssimo à boa informação (aquela que medeia e modera imparcialmente os diversos interesses em jogo expondo-os), vê-se sem capacidade de fielmente interpretar a realidade ao mesmo tempo que não percebe as verdadeiras diferenças entre as diferentes opções que lhe são propostas. No final, é o perfeito resultado de uma comunidade que, tendo rejeitado a última interpretação do mundo que lhe tinha sido imposta (o Deus, Pátria e Família de Salazar) ainda não conseguiu nos últimos quarenta anos preencher esse vácuo: que nem um barco à deriva, num mundo onde apenas os valores partilhados podem oferecer a segurança de uma âncora, está Portugal órfão de uma verdade.
(1) Friedrich Nietzsche, Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral [1873], Relógio d'Água (2010), p. 220
(2) Ibidem, p. 221
WHY PHILOSOPHY MATTERS (II)
"It is true that every being strives as much as it can to persist in its existence and if it is true that the existence as a thinking being consists in thinking (in accordance with the Cartesian identity claim: cogito, ergo sum): then it quite naturally follows from this that every thinking being must strive as much as it can to think; ... Even those who despise thinking must admit this truth, if they would only pay attention to themselves. All human activities are, as such, simply more or less thinking."
Salomon Maimon, Essay on Transcendental Philosophy (1790)
Salomon Maimon, Essay on Transcendental Philosophy (1790)
sábado, 5 de janeiro de 2013
PARADOX
"True words always seem paradoxical but no other form of teaching can take its place".
Lao-Tse (~ 600 BC)
Lao-Tse (~ 600 BC)
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
THE ART OF LIVING
"But not only medicine, engineering, and painting are arts; living itself is an art - in fact, the most important and at the same time the most difficult and complex art to be practiced by man. Its object is not this or that specialized performance, but the performance of living, the process of developing into that which one is potentially. In the art of living, man is both the artist and the object of his art; he is the sculptor and the marble; the physician and the patient. (...) It is interesting at this point to ask why our time has lost the concept of life as an art. Modern man seems to believe that reading and writing are arts to be learned, that to become an architect, an engineer, or a skilled worker warrants considerable study, but that living is something so simple that no particular effort is required to learn how to do it. Just because everyone "lives" in some fashion, life is considered a matter in which everyone qualifies as an expert. But it is not because of the fact that man has mastered the art of living to such a degree that he has lost the sense of its difficulty. The prevailing lack of genuine joy and happiness in the process of living obviously excludes such an explanation. Modern society, in spite of all the emphasis it puts upon happiness, individuality, and self-interest, has taught man to feel that not his happiness (or if we were to use a theological term, his salvation) is the aim of life, but the fulfillment of his duty to work, or his success. Money, prestige, and power have become his incentives and ends. He acts under the illusion that his actions benefit his self-interest, though he actually serves everything but the interests of his real self. Everything is important to him except his life and the art of living. He is for everything except for himself."
Eric Fromm, Man For Himself (1947)
Eric Fromm, Man For Himself (1947)
domingo, 9 de dezembro de 2012
THE SOUL
"When this mixture of the elements will have been of a more beautiful and more perfect equality, than which nothing more subtle or more beautiful can be found..., then it is made fit to receive from the giver of forms a form more beautiful than other forms, which is the soul of man."
Al-Ghazali, Metaphysics (~1100)
Al-Ghazali, Metaphysics (~1100)
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
WHY PHILOSOPHY MATTERS
"During St. Thomas' second sojourn at Paris (1268-1272), masters and scholars were discussing Averroes' views on the intellect. Even less erudite men were aware of the doctrine that there is only one intellect for the whole human race. William of Tocco, an early biographer of Thomas Aquinas, tells of a certain soldier at Paris who was unwilling to atone for his sins because, as he put it: "If the soul of the blessed Peter is saved, I shall also be saved; for if we know by one intellect, we shall share the same destiny."
Beatrice Zedler, On The Unity of The Intellect Against The Averroists: Introduction (1968)
Beatrice Zedler, On The Unity of The Intellect Against The Averroists: Introduction (1968)
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
FAITH
"Our own existence, and the existence of all things outside us, must be believed and cannot in anyway be demonstrated."
Johann Georg Hamann, Metacritique of the Purism of Reason (1788)
Johann Georg Hamann, Metacritique of the Purism of Reason (1788)
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
IRRELEVANCE
"A method that can explain everything that might happen explains nothing."
Karl Popper, The Poverty of Historicism (1957)
Karl Popper, The Poverty of Historicism (1957)
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
DAS LÁGRIMAS
"E todavia, meu amigo, se um bom silogismo vale muito, uma lágrima bem quente, bem viva e bem sentida, deve valer tanto - ou muito mais ainda. O peso de uma lágrima! Leve cousa, talvez, na palma da mão de um filósofo, acostumada a levantar a mole espantosa dos argumentos, dos sistemas, das ciências. Mas quando sobre o coração nos cai, duns olhos que Deus fizera para a luz e para a ventura, e a que a vida só deu sombras e abrolhos - então! sente-se-lhe bem o peso, a essa pobre gota de água, e não há aí já peito de bronze que não vergue e se abale, como se tocasse o dedo invisível de uma divindade..."
Antero de Quental, O Sentimento da Imortalidade [Carta ao Sr. Anselmo de Andrade] (1865)
Antero de Quental, O Sentimento da Imortalidade [Carta ao Sr. Anselmo de Andrade] (1865)
DA OPOSIÇÃO
"What is in opposition is in agreement and the most beautiful harmony comes out of things in conflict (and all is born according to strife)."
Heraclitus
Heraclitus
sábado, 29 de setembro de 2012
BEING IN THE WORLD
Vale a pena ver este documentário. Além de dar uma simples ideia da importância da filosofia para a compreensão do processo que é a vida e de como usufrui-lo melhor - a vida feliz, portanto - consegue de uma forma muito agradável dar uma nota no pensamento profundo de Heidegger e no seu conceito de ser. Claro que tem uma agenda por detrás, é verdade, mas independentemente disso pode servir sempre para reflectir um pouco sobre o que significa de facto ser-se humano; filosofar, a modos que.
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