"No mundo actual é cada vez mais evidente que toda e qualquer visão do mundo é estética, e que a pessoa humana nada tem a opor à arregimentação, ao conformismo, à nivelação, senão a sua própria existência que, criticamente, se forma e se define, ainda que mutavelmente, não nas suas relações de aderência ou de oposição a um determinado conjunto de valores dominantes, socialmente impostos ou reconhecidos como válidos (qual antigamente acontecia), mas na consciência de que nenhum sistema de valores é válido que não na pessoal verificação a que seja submetido e em que seja livremente aceite ou recusado. Não há valores transcendentes que mereçam mais respeito que qualquer vida humana; e, se acaso esses valores alguma vez existiram, estão hoje a tal ponto impregnados de falsidade baixamente humana (ou melhor, a tal ponto eles degradaram a dignidade humana), que são ainda piores do que inexistentes. Porque não é deles que a dignidade humana é feita, mas de muitos singelos e modestos valores imanentes: respeito e tolerância, honestidade e simpatia, horror do mesquinho e do medíocre, e outras destas coisas mais, como a consciência de que o mal só nasce e só existe de haver uma ideia de bem que, sendo imposta, martiriza e mutila o esplendor de existir-se. Não é no romântico regresso à Natureza que o homem se reencontrará, como também não na busca de um mundo em que, aqui ou algures, o seu ser se dissolva. Nós somos animais que negam e sublimam a crueldade feroz e irresponsável do que se chama Natureza; e seremos humanos na medida em que o amoralismo dela se faça em nós uma liberdade em que o morder e devorar não seja mais do que carícia. (...) O mal não se perpetua senão no pretender-se que não existe, ou que, excessivo para a nossa delicadeza, há que deixá-lo num discreto limbo. É no silêncio e no calculado esquecimento dos delicados que o mal se apura e afina - tanto assim é, que é tradicional o amor pelas tiranias pelo silêncio, e que as Inquisições sempre só trouxeram à luz do dia as suas vítimas, para assassiná-las exemplarmente."
Jorge de Sena, Os Grão-Capitães, Prefácio (1971)
terça-feira, 12 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
O GRANDE DESAFIO: MENOS ESTADO, MAIS LIBERDADE
A esquerda Portuguesa continua a acreditar que, desde que eleito democraticamente, todo o poder é legítimo. Acreditam que o problema reside sempre em quem governa: se quem governar for uma pessoa de bem então a governação será boa. A falácia desta visão é que a questão não é tanto sobre quem governa mas muito mais sobre como limitar o poder de quem governa: de que nos serve eleger o poder se este for absoluto, interferir negativamente nas nossas vidas e der cabo das boas condições políticas, económicas e sociais? A democracia eleitoral não basta - o PCP tem dúvidas se a Coreia do Norte não será uma democracia -, é forçoso limitar o poder de quem manda. A única garantia de liberdade é que o poder político, independentemente de quem o exerça, seja um poder limitado. Um poder pouco limitado ou escrutinado, por melhores que sejam as intenções - e está por provar que se possa confiar na bondade dos governantes, muito pelo contrário - representa um perigo: uma má governação poderá ter um impacto devastador. Já com um poder limitado, reduzido e fiscalizado, diminui-se as possibilidades de má governação e, a acontecer esta, as consequências serão muito menores. Aquilo que falha em Portugal é precisamente o triunfo do socialismo que, representando a visão oposta àquela que aqui se exprime, resulta inexoravelmente num poder estatal pouco escrutinado, ilimitado e demasiado abrangente à sociedade. Este poder, ao interferir (impostos, directivas, burocracia, etc.) na vida das pessoas tolhe-as, paralisa-as porque cria a ilusão de que o destino colectivo (a felicidade) se decide por decreto governamental e não pelo esforço e o mérito individual de cada um. Tirar a quem trabalha e mais produz para esbanjar em serviços inoperantes, mal geridos e que apenas prejudicam a igualdade de oportunidades, é uma dupla forma de limitação de liberdades: limita-se a liberdade de quem produz porque se retira o produto dessa produção; limita-se a liberdade dos que mais precisam porque não se garante uma efectiva igualdade de oportunidades. É preciso compreender que mantendo-se a estrutura governante e estatal, escolher quem governa nestas circunstâncias é absolutamente irrelevante pois acaba por ser apenas escolher quem ocupa posições numa estrutura que, ela própria, é perversa à democracia e impeditiva do sucesso económico e social do nosso país. Por isso é preciso ir mais longe, muito mais longe mesmo, é preciso escolher quem vá efectivamente alterar o sistema. É preciso forçosamente libertar a sociedade do Estado porque, pura e simplesmente, mais tarde ou mais cedo gastar sem produzir (a grande promessa socialista) leva - como se vê - à falência. Ou seja: a bem ou a mal vamos mesmo ter que mudar de vida. Utilizar esta crise como uma forma de efectivamente reformar o Estado, garantir que Portugal possa trilhar o rumo dos países mais desenvolvidos - e ricos - do mundo e oferecer uma efectiva igualdade de oportunidades aos mais desfavorecidos (oportunidades igualmente miseráveis de nada servem) é imperioso. Libertar a sociedade do Estado significa, a prazo, maior produtividade, mais riqueza e mais oportunidades para todos, principalmente para aqueles que nada ou pouco têm. A grande falácia do nosso socialismo está, essencialmente, na ideia de que este existe para proteger os fracos e oprimidos quando aquilo que entra pelos olhos dentro é que apenas mantém o actual status quo onde são uns poucos que muito têm e uns muitos que muito pouco têm. Libertar a sociedade do Estado implica oferecer, em troco do trabalho e do mérito, a verdadeira oportunidade de subir na vida e de cada um ser responsável pela sua própria felicidade. E isto a esquerda não consegue compreender e muito menos fazer. E a direita tem que perceber que, dada a gravidade da situação, esta é a sua última oportunidade: é toda uma geração que está em jogo.
DO APARELHO
As hostes agitam-se com a volúpia de quem sente que consegue chegar com os dedos ao pote; são as hostes da desgraça: o pote está vazio e os lambuzadores ainda não compreenderam que a única saída é fechar o pote, guardá-lo como um tesouro e arregaçar as mangas. Acabou-se a festa.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
É A VIDA
Pequenos homens com grandes ambições tendem a olhar demasiado para cima e a não ver aquilo que está mesmo em frente dos seus olhos. E depois tropeçam.
NA MESMA COMO A LESMA
"Uma geração nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionária, destinada, porém, como as anteriores, viva maré dum instante, e refluir anódina e apática ao charco das conveniências e dos interesses, dela restando apenas, isolados, meia dúzia de homens inflexos e direitos, indemnes à podridão contagiosa pela vacina orgânica dum carácter moral excepcionalíssimo.
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc., etc., - teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.
(...)
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quase numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcácer. Povo messiânico, mas que não gera o messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai dissolvendo-o em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza".
Guerra Junqueiro, Pátria; 1896
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc., etc., - teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.
(...)
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroísmo, capaz de cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quase numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo depois de Alcácer. Povo messiânico, mas que não gera o messias. Não o pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai dissolvendo-o em lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza".
Guerra Junqueiro, Pátria; 1896
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