"Desde que a crise grega se tornou conhecida do mundo inteiro e arredores que ando a pensar em escrever sobre o assunto. Não o tenho feito porque ter morado naquele país durante três anos não me habilita a falar sobre o estado das suas finanças públicas. Tenho, contudo, a experiência quase radical de querer fazer uma pequena obra numa casa em Atenas. À espera de uma autorização que nunca mais chegava, perguntei aos meus amigos gregos se nada funcionava no berço da democracia. Responderam com uma palavra: fakeláki. Em português, envelopezinho. Marcus Walker, no The Wall Street Journal, escreve sobre a realidade ingovernável dos fakelákia e dos rousfétia. Entre pequenos envelopes e favores especiais, os gregos chegaram ao ponto de ouvir o seu próprio primeiro-ministro, Giorgos Papandreou, a reconhecer que «o principal problema do país é a corrupção sistémica». Uma cultura de evasão fiscal e de suborno levou o país à ruína agora tão noticiada. Não foram os crimes cometidos por alguns, mas um modo de vida partilhado por todos, que arruinou o país. Quem quisesse escapar aos envelopes via a sua vida protelada para dia de São Nunca à tarde. Lá tive de mudar de casa."
Aqui.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
MASTER DAVIS
Depois da vitória épica ontem de Steve Davis (52 anos!) frente a Higgins e da grande recuperação de Robertson, hoje, Sephen Hendry com excelentes frames contra Selby. A velha guarda está em grande tal como este excelente Campeonato do Mundo de Snooker. Mas há que ressaltar a exibição de Steve Davis. Aquele que é um dos melhores jogadores de sempre (seis títulos mundiais, todos nos anos 80) continua a mostrar que, mesmo aos 52 anos de idade, uma vez grande, sempre grande.
REVOLUÇÃO
Seria bom que o ideal romântico e utópico que nos trouxe a revolução de 25 de Abril de 1974 se estendesse à noção que a liberdade é uma conquista permanente (e perpétua) muito longe deste momento em que nos acomodamos nesta videirice peçonhenta pantanosa da pré-falência; de facto, hoje, neste país estagnado pelo peso de uma dívida contraída pelo desvario de uns irresponsáveis parasitas, uma revolução seria aquilo mesmo que seria necessário. Uma revolução na mente, na mentalidade; uma revolta contra o socialismo pseudo-fascizante no seu marquetismo do respeitinho e do politicamente correcto e que nos atrofia a uma existência do mais ou menos, do pobrezinho, do triste fado que não nos larga. Um revolta contra o sistema do esquema do chico-esperto, dos negócios obscuros à conta dos mesmos; uma revolta contra os grilhos da mediocridade que o egoísmo individualista desta máfia dos pequeninos nos coloca prendendo-nos, roubando-nos a vida que mereceríamos, a que temos direito, roubando-nos a liberdade. Mas contenta-se o povo com cantar as virtudes da liberdade sem perceber que aqueles que mais dela falam sempre foram aqueles que contra ela mais conspiraram: hoje, tal como sempre. Mas, enfim, liberdade também pode ser isto: afinal não há maior acto de liberdade que o acto de suicídio. Fiquemo-nos nesta espécie de suicídio lento, masoquista e sem luz ao fim do túnel até ao dia do desastre e talvez aí acordemos, talvez aí nos revoltemos novamente e talvez, quem sabe, trinta e seis anos depois desse dia, voltemos a cantar outra vez.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
A MENTIRA
"Outro dia li que a função da mentira é «substituir meios mais violentos». A ideia de que a mentira tem uma «função», e logo uma função positiva, é um bocado repugnante. É como dizer que os genocídios regulam a demografia. Mas além disso, não percebo o que seja um «meio mais violento». A violência física, por exemplo, é uma agressão, tal como a mentira, mas pelo menos opera dentro da realidade. A mentira distorce a realidade. Não conheço nada mais violento do que distorcer a realidade."
Pedro Mexia
Pedro Mexia
quarta-feira, 21 de abril de 2010
domingo, 18 de abril de 2010
DO IMPÉRIO
APOLOGIA DA DECADÊNCIA HUMANA
A quebra dos valores de sempre não resulta da ausência da discussão sobre os valores nem das proclamações de valores. Pelo contrário. Proclama-se o que não se tem e discute-se o que não se compreende. Um prova de tal afirmação será, por exemplo, o facto de todos respirarmos e não passarmos o dia a discutir quantas vezes inspiramos ou deixamos de inspirar. Os valores são o alicerce da interacção humana; não há leis que os substituam, não há palavras que os protejam, apenas actos, apenas a experiência dos valores como o arauto da confiança humana. Por outras palavras: os valores são a linguagem da comunhão humana; é através deles que nos entendemos. Por estas razões, este triunfo avalorativo na civilização dita "moderna" significa, para quem tiver os olhos bem abertos, o prenúncio de uma catástrofe eminente. Na quebra de confiança, da fidelidade, da amizade pura e verdadeira, da comunhão emocional, na quebra de tudo o que de facto "significa" através da apologia do materialismo individualista e da cedência de uma forma generalizada (por preguiça ou ignorância) à superficialidade emocional e intelectual damos cabo do cimento da edificação humana permitindo uma retumbante vitória do Mal sobre o Bem. Evidentemente, o atomismo atávico, auto-implosivo, cego e desvairado será a triste consequência: a quebra da confiança na civilização humana representará um buraco negro para onde nos precipitaremos a toda a exponencial velocidade na exacta medida do falhanço de tudo o que um dia foi (ou deveria ter sido) considerado o essencial. Perdendo-se os fins, ficamos pelos meios, enredados no materialismo que nos atola a uma existência infeliz de inveja e cobiça. O Inferno, portanto. Não se pode construir uma casa sem cimento: sobram os tijolos. E depois do desastre, espera-se que talvez alguma aprendizagem venha. Insisto no 'talvez'. E desse pequenito 'talvez', talvez venha um novo ciclo onde recomeçaremos a construir um mundo novo. Talvez me perguntem porque derivo eu de tamanho pessimismo o optimismo de um sucesso futuro? Respondo que me sobeja a noção que da irrelevância de todo este pequeno ego que se agiganta perante nós (mostrando o quão pequenos somos) desponta o desespero da decadência humana: perante a morte que nos há-de colher a todos nada tem importância. Quer seja o falhanço no desastre, quer seja o deslumbre do sucesso que nos assole tudo cederá perante a inexorável decadência humana. Mais tarde ou mais cedo, todos, todos mesmo, seremos deitados que nem pó para esta terra que nos viu nascer. Mortos. Decadentes. Irrelevantes. Por isso meus caros materialistas: a irrelevância da vossa escolha não afecta o falhanço que nos espera; a seguir à vossa derrota outros virão, uns bons, outros maus, para serem derrotados também. Aquilo que vocês, meus idiotas, ainda não perceberam é que no fim, mortos e enterrados, fodemo-nos todos. Ámen.
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