sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A FOLIA DO CAOS

Comecei, juntamente com os meus dilectos amigos Francisco Corboz e Francisco Felizol, um novo projecto bloguista, de seu nome A Folia do Caos, e por ali andaremos a passear por terras mais ou menos ligadas à filosofia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

RUIVO, O ANTIGO

Ao subir a Rua da Atalaia, três crianças ocupavam-se a dar chutos mais ou menos acrobáticos numa bola meio cheia rumo a uma baliza imaginária. Dada a excitação e a energia, a brincadeira não durava certamente há muito. Um, mais baixo, ruivo e com o cabelo áspero e grosso, acerca-se da bola e numa pirueta mais afoita, pontapeia-a imaginando, decerto, um dos ângulos superiores da dita baliza; no entanto, contrariamente aos seus intentos, o pé acerta mal no esférico e a bola ao invés de subir vertiginosamente rumo ao indefensável ponto idealizado, acaba por, numa rosca, rodopiar sobre si própria e mal sair do sítio de onde estava. O autor do remate, encavacado, ferido no orgulho, assume com coragem "Xiiiii que mal...", e abdica voluntariamente, por força do seu desaire, de disputar a próxima jogada. Um dos outros dois, apropria-se da bola, chuta com maior eficácia do que a do ruivo e, após o golo celebrado com a camisola por cima da cabeça, pergunta, a suar e arfando da excitação, ao terceiro elemento da troika futebolística: "Tu és o Messi, não é?". Já o outro, quase ofendido, responde-lhe que não, não é o Messi mas sim o Ronaldo. "Ah, okai... Então sou eu o Messi" decidiu o goleador. Nesse momento tanto o Ronaldo como o Messi voltam-se para o ruivo que, à parte, se mantinha calado, como que sem identidade. "E tu quem és?", perguntou-lhe o Ronaldo. "Eu?", começou ele para ganhar tempo. "Eu... eu sou o Ronaldinho". E num assomo de dignidade acrescentou: "mas o antigo", como quem dissesse 'o dos velhos tempos'. E dessa forma astuta saiu ele da impossibilidade de partilhar o trono da glória futebolística contemporânea onde, fruto da realidade empírica, apenas havia espaço para dois. Escolhendo o antigo, escolheu outro tempo e, fora do tempo, já não tinha de partilhar a glória com ninguém. Confiante, Ruivo, o antigo, correu para a bola e, disputando o próximo lance com a galhardia dos invencíveis, jurou para sim mesmo que no próximo remate não voltaria a falhar.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

MELANCOLIA TECNOLÓGICA



Absolutamente brilhante.

A NECESSIDADE DA CRENÇA

"A fé da bem-aventurança. A virtude só dá felicidade e uma espécie de bem aventurança àqueles que têm fé na sua própria virtude, mas não àquelas almas mais subtis, cuja virtude consiste numa profunda desconfiança de si próprias e de toda a virtude. Donde, afinal, também aqui «a fé dá bem-aventurança» - e não a virtude, note-se bem!"

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência (1882)

CLASSE

"As mal sucedidas. O sucesso falha sempre àquelas pobres mulheres que se mostram inquietas e inseguras e que falam demasiado em presença daquele que amam. Pois aquilo que seguramente mais seduz os homens é uma certa ternura discreta e fleumática."

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência (1882)

I'M NOT AFRAID ANYMORE

Joy Division, 'Insight', Unkown Pleasures (1979)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

LA FLORIESTA NEGRA

- És uma raposa velha...
- Raposa velha? Qual quê... raposa antiga.
Rimos. O táxi continuou a rolar pelas ruas de macadame rumo ao Largo do Caldas. Entretanto, uma dúvida assaltou-me: - Mas... diz-me: fizeste a tropa nos states?
- Fiz, pois - respondeu ele com prontidão e, mantendo aquela ponta de gozo que caracterizava o seu discurso, não deixou de escapar a um certo orgulho que conferia maior seriedade àquela afirmação.
Interessei-me definitivamente pela questão: - Ah foi? Em que especialidade? - indaguei.
 - Em minas... reconhecimento de minas - respondeu. Exprimi a minha admiração e, talvez por assaltar-me a dúvida quanto à veracidade de tais afirmações permaneci calado. O motorista, atento e curioso, resolveu entrar na conversa: - Então e fazia o quê? - perguntou ele enquanto fazia uma curva mais apertada.
- Ia lá... e púnhamos uns identificadores nos lugares que nos mandavam para os aviões irem lá depois bombardear - esclareceu.
Pareceu-me demasiada acção para um recruta.
- Mas falas de bombas tu? Fizeste alguma operação especial? - perguntei antecipando uma negativa.
- Fiz pois - afirmou ele com toda a naturalidade; e acrescentou: - A do Noriega.
- Estás a gozar... Tu participaste na deposição do Noriega?? - perguntei incrédulo. Imediatamente, pleno de satisfação orgulhosa e como se fosse a coisa mais natural do mundo, declarou: - Claro.
Ri-me e calei-me. Como se a minha reacção denotasse algum cepticismo, passados uns segundos acrescentou: - Posso dizer-te o nome de código e tudo. 
Fiquei curioso: - Qual era?
- La floriesta negra